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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Reviravolta na evolução

Ossos encontrados na Etiópia revelam que, ao contrário do que se imaginava até hoje, o uso de ferramentas começou cerca de 1 milhão de anos antes do Homo habilis. Paleoantropólogo diz que descoberta muda drasticamente a história do homem.

É uma cena difícil de imaginar para quem acredita na supremacia da espécie Homo dentro da escala evolutiva. Há 3,4 milhões de anos, o marido de Lucy (1) sai para caçar e encontra um mamífero do tamanho de uma vaca. O animal está agonizando — talvez tenha sido ferido por outro maior que ele. Então, o hominídeo, de 1m de altura, mais parecido com um chimpanzé do que com um homem moderno, pega uma faca que ele mesmo fabricou, corta os pedaços de carne e leva a presa para a caverna. O jantar da família está garantido.

Graças a dois pedaços de ossos encontrados da região de Afar, na Etiópia, cientistas do Projeto de Pesquisa Dikika (2) descobriram que os ancestrais do homem moderno comiam carne um milhão de anos antes do que se acreditava. Também eram capazes de usar um artefato complexo para separar o alimento da carcaça. Até agora, essa era uma habilidade atribuída apenas ao Homo habilis, que viveu cerca de um milhão de anos depois do Australopiteco afarense, espécie de hominídeo ao qual Lucy pertenceu.

O líder da equipe de pesquisadores, o paleoantropólogo Zeresenay Alemseged, da Academia de Ciências da Califórnia, disse que a descoberta muda “dramaticamente” o que se pensa, até agora, sobre o comportamento dos ancestrais do homem. Segundo ele, o uso de ferramentas alterou a maneira como os hominídeos interagiam com a natureza, permitindo que eles experimentassem novos tipos de alimento e explorassem territórios ainda desconhecidos. “Criar ferramentas foi um passo crítico para o nosso padrão evolutivo, e que eventualmente permitiu o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas, como aviões, tomógrafos e até iPhones”, exemplificou Alemseged.

À primeira vista, os dois ossos encontrados podem parecer apenas mais um par de fósseis. De acordo com o paleoantropólogo, contudo, trata-se de uma revolução na história evolutiva. “Essa descoberta vai, definitivamente, nos forçar a revisar nossos textos sobre a evolução humana, já que evidencia que o uso de ferramentas e o consumo de carne na nossa família é um milhão de anos mais antiga do que acreditávamos. E esses desenvolvimentos tiveram um impacto enorme na história da humanidade”, comenta.

Até agora, a evidência mais antiga de uso de ferramentas para cortar carne havia sido descoberta em Bouri, também na Etiópia, em ossos com várias marcas, datados de 2,5 milhões de anos atrás. A ferramenta de pedra mais antiga, da mesma época, foi encontrada perto da região etíope de Gona. Apesar de nenhum fóssil de hominídeo ter sido descoberto junto dos ossos em Bouri ou à ferramenta em Gona, uma mandíbula superior pertencente a algum indivíduo do gênero Homo com cerca de 2,4 milhões de anos estava em uma localidade próxima. A maior parte dos paleoantropólogos acredita que as ferramentas foram feitas e usadas apenas a partir do Homo habilis, que leva esse nome justamente pela habilidade de transformar objetos da natureza em artefatos úteis.


Comprovação

Os ossos dos animais — que teriam o tamanho de uma vaca e de uma cabra — encontrados agora foram datados em 3,4 milhões de anos. Vários exames comprovaram que as marcas aparentes nos fósseis foram provocadas por um objeto cortante. Usando a técnica de energia dispersiva de raios X, os pesquisadores constataram que as marcas foram criadas antes de os ossos serem fossilizados, significando que um dano recente pode ser eliminado como causa das marcas. Além disso, elas estão mais de acordo com a morfologia de um corte provocado por um objeto de pedra do que com o formato de uma mordida.

De acordo com Alemseged, os ossos estavam a 200m do local onde a equipe do paleoantropólogo havia descoberto, há 10 anos, o esqueleto de Selam. Anunciada à imprensa em 2006, a Australopithecus afarensis foi apelidada de “filha da Lucy”, a fêmea que viveu há cerca de 3,3 milhões de anos. “Depois de uma década estudando Selam e procurando por novas pistas sobre sua vida, podemos, agora, adicionar um detalhe significativo à sua história”, disse Alemseged ao Correio. “À luz dessa descoberta, podemos pensar que Selam deveria ajudar os membros de sua família no corte dos restos dos animais”, diz.

Segundo o pesquisador, a localização e a idade dos ossos encontrados em Dikika indicam claramente que as ferramentas foram usadas por indivíduos da espécie Australopithecus afarensis, já que nenhum outro hominídeo viveu nessa parte da África ao mesmo tempo que ele. “Agora, quando imaginarmos Lucy caminhando pela paisagem do leste africano, procurando por comida, podemos, pela primeira vez, imaginá-la com uma ferramenta de pedra nas mãos e caçando carne”, disse, em nota à imprensa, Shannon McPherron, arqueóloga do Projeto de Pesquisa Dikika. “Com as ferramentas nas mãos, que permitiam facilmente arrancar a carne e quebrar ossos, as carcaças dos animais devem ter se tornado uma fonte de comida mais atrativa. Esse tipo de comportamento remonta a duas características que, mais tarde, seriam usadas para definir nossa espécie — carnívoros e fabricante/usuário de manufaturas”, acrescentou.


Dúvida

Embora esteja claro que o Australopithecus afarensis usava pedras pontudas para arrancar a carne dos ossos, é impossível saber, somente pelas marcas, se os indivíduos chegavam a afiá-las para ganhar esse formato ou se já procuravam, na natureza, por pedras que pudessem servir de ferramenta. Até agora, a equipe de pesquisadores ainda não encontrou nenhuma pedra em Dikika pertencente a esse período. Segundo McPherron, o objetivo do grupo, agora, é tentar localizar as ferramentas para verificar se elas realmente eram feitas pelos Australopithecus afarensis.

Independentemente disso, Alemseged está certo de que a descoberta é reveladora. “Agora, temos um entendimento maior sobre as forças seletivas responsáveis por moldar as primeiras fases da história humana. Uma vez que nossos ancestrais começaram a usar ferramentas de pedra para ajudá-los a desossar grandes carcaças, isso abriu para eles uma competição arriscada com outros carnívoros, o que pode ter requerido um nível de trabalho de equipe sem precedentes”, acredita.


1 - Homenagem aos Beatles

Os ossos de Lucy foram descobertos em 1974, no deserto de Afar, na Etiópia, pelo norte-americano Donald Johanson. Com idade estimada entre 3,4 milhões e 3,2 milhões de anos, ela é a mais antiga ancestral do gênero Homo já encontrada. Outros fósseis de hominídeos descobertos nos últimos anos são mais antigos do que Lucy, mas nenhum está tão completo quanto o dela. O esqueleto ganhou esse nome em homenagem à música dos Beatles Lucy in the sky with diamonds.


2 - Grupo especializado

O instituto de pesquisa foi criado pelo paleoantropólogo etíope Zeresenay Alemseged, em 1999. Nos últimos 11 anos, ele vem conduzindo temporadas de estudo em campo em Dikika com um grupo de pesquisadores internacionais especializados em paleoantropologia, paleontologia, geologia e arqueologia. O objetivo é descobrir questões relacionadas à evolução do homem. Em 2006, a equipe publicou um artigo na revista Nature, descrevendo o mais antigo e mais completo esqueleto de uma criança da espécie Australopiteco afarense, batizada de Selam. 


Três perguntas para Zeresenay Alemseged // Paleoantropólogo

O que o senhor considera o mais importante da descoberta?

Essa descoberta muda dramaticamente o que sabemos sobre o comportamento de nossos ancestrais. O uso de ferramentas alterou a forma como nossos ancestrais interagiam com a natureza, permitindo a eles comer novos tipos de alimentos e explorar novos territórios. Isso também os conduziu à arte de fabricar ferramentas, um passo crítico nos padrões da evolução, que resultou, eventualmente, em tecnologias mais avançadas, como aviões, tomógrafos e iPhones.


O que muda agora no nosso entendimento sobre os australopitecos?

Essa descoberta definitivamente nos força a revisar nossos livros sobre a evolução humana, já que ela mostra a evidência do uso de ferramentas e do hábito de comer carne em nossa família, 1 milhão de anos antes do que o esperado. Esses desenvolvimentos tiveram um enorme impacto na história da humanidade.


Nas escala evolutiva, o que signficiou o uso de ferramentas pelos australopitecos?

Agora, temos um grande entendimento das forças seletivas que foram responsáveis por moldar as primeiras fases da história humana. Uma vez aue nossos ancestrais começaram a usar ferramentas de pedra para tirar a carne de grandes carcaças, eles se dispuseram a entrar em uma competição arriscada com outros carnívoros, o que pode ter requerido a eles engajar em um nível de trabalho de equipe sem precedentes. [Fonte: Correio Braziliense]

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